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O Universo da Solidariedade Galáctica


 

Capítulo 1: Visita indesejada

 

Foi Nandi que detectou primeiro a chegada da nave trantoriana.

Alerta amarelo, apenas, pois era um simples transporte escoltado por um par de corvetas, não uma frota de guerra. Algo, ou alguém importante, estava para ser desembarcado na Terra-2. A monitoração dos movimentos da Tuft e de militares apontava para uma base oculta em determinada floresta de Montana, nos EUA.

Mirina estava ocupada com uma turnê na Rússia e Jaya achou melhor Nandi ficar a postos na sua nave, para o caso de começar a voar chumbo grosso. Chamou Temi para investigar o que estava para acontecer.

Era uma noite de verão. Jaya e Temi caminhavam entre as árvores, seguidas por Virtual Boy e Peter Pan, invisíveis. A área era propriedade privada de uma subsidiária da Tuft Corporation e placas advertiam: os guardas estão armados e têm ordens de atirar em estranhos. Mas o lugar parecia deserto e só se ouvia cricrilar de grilos, pios de coruja e, muito ao longe, o uivo de um lobo distante.

De repente, uns doze metros à frente das duas terrígenas, surgiram dois estranhos armados com pistolas. Um homem relativamente alto, de cabelos e olhos castanhos, que usava um terno azul e uma ruiva baixinha, de olhos azuis, com um terninho castanho.

Freeze! Don’t move! É o FBI – disse o homem, acendendo uma lanterna bem forte – mãos na nuca e nenhum movimento brusco!

Jaya e Temi se entreolharam.

– <Vamos desarmá-los?> – perguntou telepaticamente Temi.

– <Sim. Finja obedecer e, ao meu sinal, pulamos juntas.> – respondeu Jaya.

As duas colocaram lentamente as mãos na nuca e flexionaram ligeiramente os joelhos, como se estivessem com tremedeira nas pernas. No instante seguinte, saltaram como duas panteras, deram uma cambalhota no ar e caíram sobre os dois agentes antes que eles tivessem tempo de apontar as armas para o alto. Arrancaram-lhes as pistolas como quem tira uma chupeta da mão de um bebê e apagaram as lanternas.

– Muito bem – sussurrou Jaya – agora o pique está com vocês. Expliquem quem são, quem os mandou e o que estão fazendo aqui.

– Espere aí – falou a mulher, erguendo a voz – você não tem esse direito...

– Silêncio, por favor – disse o homem, baixinho – ouça-me, somos agentes do FBI. Viemos investigar o desaparecimento de uma patrulha de escoteiros perto desta floresta, há dois dias. Um fazendeiro vizinho viu luzes estranhas no céu nessa noite...

– Mulder, por favor... disse a mulher.

– Vocês não foram chamados por Tuft, então? – perguntou Jaya, afrouxando a chave de braço.

– Pelo contrário. Achamos que ele pode ter algo a ver com isso. Fizemos parte da força-tarefa que fechou o laboratório da Tuft Genomics em San Antonio e vimos o que foi feito com os pobres árabes seqüestrados – respondeu o homem.

– Está bem – disse Jaya – acho que podemos confiar em vocês. Temi, pode soltar a ruiva.

– Meu nome é Fox Mulder – disse o homem, mostrando a carteirinha do FBI –, o dela é Dana Scully. Posso perguntar o de vocês?

– Eu sou Artemísia, mas pode me chamar de Temi – disse a mulata. Minha amiga se chama Jaya.

– Seus nomes são estranhos, mas falam sem sotaque. Vocês são estrangeiras? – perguntou Scully.

– Sim. Realmente somos estrangeiras – respondeu Jaya.

– Alienígenas? – insistiu Mulder.

– Por que pergunta isso? – disse Temi, sinceramente curiosa.

– Não ligue – disse Scully – é uma espécie de obsessão deste meu colega.

– Obsessão? Você viu esse salto?

– Ora, Mulder. Não é a primeira vez que vemos demonstrações de artes marciais.

– Sim, também estive na academia de polícia. Mas onde você viu algo como isto? No jogo de Street Fighter? No filme O Tigre e o Dragão? Elas devem ter quebrado vários recordes mundiais de uma só vez!

– Bem, que tal irmos juntos? – perguntou Jaya – também estamos interessadas no que está acontecendo por aqui.

– Importa-se de nos devolver as armas? – perguntou Scully.

– Tem razão, vocês podem precisar delas. Mas as lanternas ficam apagadas – disse Jaya.

– Quê? Como vamos achar o caminho nessa escuridão? – espantou-se Mulder.

– Não se preocupem, é só nos seguir. Nós sabemos para onde ir. – respondeu Temi. E foram na frente.

– Não disse? – segredou Mulder para a colega – elas têm algo de sobre-humano... Como podem achar o caminho nesta floresta escura, numa noite sem lua?

– Mulder... explicou Scully, paciente – há pessoas com boa visão noturna... Aí, calou-se e pensou. Jaya a havia chamado de ruiva. No escuro, dois segundos depois de ter recebido o foco de uma lanterna nos olhos. Mulder, sempre alerta para esse tipo de coisa, deveria ter sido o primeiro a notar. Mas ele era daltônico. Não tinha consciência do quanto é difícil ver cores no escuro, mesmo para pessoas normais.

 

Capítulo 2: contatos imediatos de terceiro grau

 

Depois de mais ou menos uma hora de caminhada, chegaram à beira de um barranco. Temi, que estava à frente, fez sinal para se aproximarem. Uns trezentos metros adiante, ao pé do morro no qual haviam subido, havia uma inesperada pista de pouso, iluminada e guardada por homens armados que olhavam ansiosamente para cima.

– O que acha que estão fazendo? – sussurrou Mulder.

– Psiu – disse Jaya – espere quieto mais um pouco e verá. Não saia do meio das folhas. Use isto, se quiser – e tirou um binóculo cor-de-rosa da mochila.

Depois de mais uns cinco minutos, apareceram três luzes no céu. A mais brilhante delas destacou-se das outras e aproximou-se com incrível rapidez, ofuscando as estrelas. Ao usar o binóculo, Mulder viu a luz dividir-se novamente em três.

Quando as luzes se aproximaram ainda mais, pôde ver que brilhavam nas pontas de um enorme objeto triangular, que depois de mergulhar com uma velocidade surpreendente, parou repentinamente sobre o campo de pouso e começou a descer lentamente. A coisa devia ter pelo menos duzentos metros de comprimento.

      

O óvni pousou na pista e os homens tomaram posição em duas fileiras à sua frente, como se estivessem se preparando para uma cerimônia. Quatro engravatados – três deles jovens e atléticos, o outro grisalho e barrigudo – e uma mulher de tailleur esguia e peituda – desceram de um microônibus e colocaram-se entre as duas fileiras de homens armados, como para recebê-los.

Uma rampa abriu-se e desceu um loiro alto, sério e imponente, vestido com um amplo manto escuro e seguido a uma distância respeitosa por homens de armadura – ou seriam robôs?, pensou Mulder.

– Até que ele é bonitinho... sussurrou Jaya.

– Tem alguma idéia de quem seja? – perguntou Temi.

– Pelo traje formal trantoriano e pelas tropas de elite que o escoltam, deve ser um alto funcionário civil. Talvez um diplomata.

– Pelo amor de Deus – disse Scully – me empreste esse binóculo.

– Tome – disse Mulder – e duvide, se puder.

Scully olhou cuidadosamente para a cena, como se tentasse descobrir um truque que lhe permitisse acreditar que aquilo era a filmagem de mais uma superprodução de Spielberg ou George Lucas. Mas não havia câmeras nem cinegrafistas e – que ela soubesse – os diretores de Hollywood não faziam flutuar no ar uma coisa do tamanho de um porta-aviões, a não ser com efeitos especiais.

De repente, ela pareceu reconhecer alguém.

– Aquele homem de terno!

– Qual? – perguntou Mulder.

– O velho. Veja: não é o Douglas Grogsfeld?

– O secretário da Defesa? E os outros? – perguntou o parceiro.

– São executivos e seguranças da Tuft Corporation – disse Jaya.

– Você os conhece? – sussurrou Scully.

– Um deles é o próprio Tuft. Os outros também usam o alfinete com o logo da Tuft. Os seguranças usam o uniforme da companhia.

Scully olhou de novo, desconfiada. Mesmo com o binóculo – por sinal, muito bom –, mal podia ver os pontos brilhantes nas lapelas, quanto mais reconhecer neles um logotipo.

– Seu ministro está cumprimentando o trantoriano – disse Temi – saúda-o em nome dos Estados Unidos da América e da humanidade.

– Bem típico do seu governo, falar em nome da humanidade inteira... disse Jaya.

– Não olhe para mim, não votei neles – disse Mulder – mas como conseguem ouvir o que ele diz, com esse barulho e a essa distância?

– Não ouço – explicou Temi – leio os lábios.

– Ah...

– O trantoriano respondeu e a mulher de tailleur está traduzindo para Grogsfeld – disse Jaya. Interessante, a tradução não é muito fiel.

– Como assim? – perguntou Scully.

– Em resumo, o embaixador Bren-bil diz que Kleon Bethgar – isto é, Sua Majestade Imperial Kleon, o imperador de Trantor – está disposto a trazer a civilização a este pequeno e bárbaro planeta concedendo-lhe a anexação ao Império Galáctico. A mulher da Tuft diz, em inglês, que o presidente Kleon gostaria de ter os Estados Unidos como aliados e está certo de que, para onde a América se inclinar, o resto da Terra a acompanhará.

– Ah... Desta vez, Scully acreditou. Seu ceticismo, exausto, aproveitou a oportunidade para relaxar. Por fim, havia ouvido algo em que podia acreditar sem virar sua concepção de realidade pelo avesso.

– Agora, o Grogsfeld diz estar certo de que o Presidente verá a oferta de Trantor com bons olhos – disse Temi –, mas primeiro gostaria de conversar sobre as armas.

– Que armas?

– Psiu! Bren-bil lhe disse algo como “veremos” – disse Jaya – Estão caminhando para os escritórios. Dessa posição fica difícil ver o que estão dizendo. Virtual Boy e Pan, vocês podem acompanhá-los?

– Só até a porta – disse uma vozinha vinda do nada – há um campo de força que não nos deixa sondar lá dentro.

– Mas ouvimos o que diziam antes de entrar – disse outra voz invisível – falavam sobre raios xaser e defletores tipo I.

– Armas há muito obsoletas até para os trantorianos, verdadeiras peças de museu – comentou Temi – mas para Grogsfeld, com certeza, são o máximo.

– Quem está aí? – assustou-se Scully.

– Podem aparecer – disse Jaya – é hora destes dois começarem a entender o que está acontecendo.

Duas figuras materializaram-se à frente dos dois agentes. Uma era um garotinho vestido de terno de linho branco. O outro, um pouco maior, vestia-se de verde e tinha orelhas pontudas.

– Agora tenho certeza – disse Scully – de que é mesmo um sonho. Ai, Mulder, não me belisque!

– Eu já tinha me beliscado umas cinco vezes. Só para ter certeza.

– Mas vimos outra coisa importante – disse o baixinho de branco – naquele galpão tem sete meninos vestidos de paspalhos, amarrados e amordaçados.

– E um paspalho vestido de menino – disse o de verde.

– Os escoteiros! – disseram as garotas.

 

Capítulo 3: Resgate acidentado

 

Cinco figuras esgueiraram-se pelas sombras, atrás do galpão verde.

– Devíamos ter pedido reforços – queixou-se Scully.

– Esqueceu-se que o secretário da Defesa está lá dentro? Além do mais, desconfio que essas meninas valem por um pelotão de marines – sussurrou Mulder – talvez um batalhão.

A terceira, com certeza, valia, pensou o agente. Nandi, aquela mulher enorme que havia se materializado de repente e não se parecia nada com um holograma, parecia disposta a enfrentar um pelotão até com as mãos nuas. E a expressão “armada até os dentes” nunca lhe havia parecido mais adequada. Além de dois coldres com armas que pareciam bem pesadas, levava uma espada de um lado e uma ameaçadora roda metálica do outro.

Jaya também puxou da mochila uma espécie de pistola cor-de-rosa e deu outra a Temi.

– Só podia ser rosa... pelo menos não tem florzinhas – conformou-se Temi, enquanto Nandi punha-se de guarda na esquina do galpão.

Com um leve estalido, a janela do galpão se abriu e o garoto de branco olhou para fora.

– Podem entrar! – sussurrou Virtual Boy – a barra está limpa.

Os quatro entraram silenciosamente pela janela e começaram a ajudar Virtual Boy e Peter Pan a libertar as crianças. Cortavam as cordas com os canivetes de cabo rosa que Jaya havia distribuído e faziam sinal de silêncio. As crianças obedeciam, fascinadas. Um garoto loiro de cabelo espetado também pediu um canivete e pôs-se a ajudar.

– Como é que hologramas seguram canivetes? – perguntou Scully, confusa.

– Com padrões de pseudo-materialização – segredou Temi – feixes de ondas eletromagnéticas coerentes formam campos de força capazes de manipular objetos sólidos e exercer forças de até 300 newtons...

– Elesvãonosmatar! Elesvãonosmatar! Berrou, histérico, o marmanjo sarado que liderava os escoteiros.

– Xiu! Já disse! – zangou-se Jaya, amordaçando-o de novo.

– O que está acontecendo aí? – disse uma voz lá fora.

– Melou. Vamos cair fora já – disse Temi.

Jaya apontou a pistola cor-de-rosa e a parede que dava para o lado da floresta evaporou-se, junto com um grande pedaço da cerca eletrificada que as garotas haviam pulado carregando os agentes do FBI e as árvores que haviam tido a infelicidade de crescer ali perto.

Os garotos saíram correndo, seguidos pelo líder, que ainda se esforçava para tirar a mordaça da boca e escoltados por Mulder e Scully. As duas agentes da Solidariedade Galáctica e os hologramas juntaram-se a Nandi para distribuir raios paralisantes aos seguranças que acorreram para ver o que estava acontecendo.

A confusão chamou a atenção dos tripulantes da nave trantoriana. Uma dúzia de soldados de armadura desceu pela rampa, gritando algo que para Mulder, já meio embrenhado na floresta, soava como “mãos ao alto” em trantoriano.

– Tagarela e Dançarina, hora de meter bronca! – disse Nandi, arremessando a espada e o chacra na direção dos soldados.

As duas armas voaram. Como se tivessem vontade própria, atacaram os soldados, cortando-lhes as pistolas e fuzis, girando loucamente pela pista e ignorando os disparos que tentavam acertá-las. Outros soldados despencavam nas crateras fumegantes que os disparos das três terrígenas abriam exatamente na sua frente. Os que sobraram começaram a disparar, com mais barulho e menos pontaria.

Antes que algum deles desse sorte, Jaya jogou uma espécie de granada e uma explosão silenciosa inundou o campo de pouso uma fumaça preta que se espalhou com densidade e velocidade impossíveis.

Quando ela se dissipou – deixando uma espessa camada preta sobre todos os visores, janelas e escotilhas na área – os prisioneiros e os intrusos haviam desaparecido.

– O coronel vai me matar – pensou o comandante do pelotão de fuzileiros trantorianos enquanto tentava limpar aquela coisa entranhada no cristal do capacete – ou pior, vai me largar neste planeta maluco.

 

Capítulo 4: Na floresta

Avançaram rápido. Tagarela e Dançarina divertiram-se abrindo caminho para a garotada. Cortavam as trepadeiras, ramos, troncos, pedras e o que mais houvesse no caminho.

– Essas gatinhas andavam meio zuretas. Fazia tempo que não pintava treta e ficavam o tempo todo enfurnadas – comentou Nandi – Agora estão todas-todas.

Scully caminhava ao lado de Temi, ensimesmada. De repente, não agüentou mais:

– Vocês e eles são mesmo extraterrestres? Eu pensava que, se os alienígenas existissem, seriam muito diferentes de nós. Ou, no mínimo, seriam baixinhos, cinzentos, cabeçudos, olhudos e carecas, sei lá...

– Esses devem ser os prociônidas. São inteligentíssimos e têm uma extraordinária capacidade visual. Podem distinguir centenas de cores e fazer detalhadas análises espectroscópicas de uma substância apenas com o olhar. Um deles foi meu professor de química. Será que apareceram alguns deles por aqui?

– Quantos tipos de extraterrestres existem? – perguntou Mulder.

– Deixe-me ver... Segundo a estimativa mais atualizada da Enciclopédia Galática, se não me engano, há pelo menos de 332 milhões de espécies inteligentes nesta Galáxia, 78.998.082 das quais já foram catalogadas e classificadas pelos nossos xenólogos....

– Mas por que vocês e os trantorianos são tão parecidos conosco? – insistiu o agente.

– Ah, essa é uma boa pergunta. Eu precisaria de pelo menos uma hora para explicar o que sabemos sobre isso e vocês levariam vários anos para acreditar...

Apareceu uma alcatéia de lobos esfomeados. Mas as lâminas nem tiveram tempo de agir. Foi só Nandi rosnar para eles. Meteram o rabo entre as pernas e saíram ganindo.

– Tenho um jeitinho especial para lidar com bichinhos – disse ela.

Jaya achou que já estavam a mais de dois quilômetros do campo de pouso, quando Virtual Boy e Pan, que iam à frente como batedores, notaram os fuzileiros trantorianos.

Seriam difíceis de ver com olhos humanos, mesmo que não estivesse tão escuro. Suas armaduras camuflam-se instantânea e automaticamente com as cores da paisagem que os rodeia, tornando-os quase invisíveis. Mas para os sensores das duas inteligências artificiais, eram tão visíveis quanto um par de ursos brancos numa mina de carvão bem iluminada.

– Jaya! – sussurrou Virtual Boy – tem mais seis rambos atrás das árvores. As coordenadas são as seguintes...

As garotas dispararam de novo as pistolas cor-de-rosa e os deixaram duros como pedra. O escoteiro loiro, de cabelo espetado, cutucou um deles, curioso e o fuzileiro caiu de lado sobre uma pedra, como um bonequinho Falcon mal equilibrado. O garoto ficou muito desapontado: não quebrou.

Seguiram à frente mais alguns metros e Jaya ouviu um som estranho. Olhou para cima e viu um homem descendo do céu.

– Cuidado!

Um brutamontes voador pousou à frente. Pôs às mãos na cintura, derrubando um par de árvores com os cotovelos, inflou o peito e bradou:

– Em nome de Trantor, rendam-se, vermes! E sem truques! Estou armado e protegido por um campo de força invulnerável.

Tagarela e Dançarina investiram contra o recém-chegado, mas ricochetearam contra o campo de força. Ele usou os olhos para disparar raios de calor contra as duas armas – em vão, pois estavam igualmente protegidas. Voltou-se então para Jaya, imaginando que ela controlava as armas.

Jaya olhou para ele e disse só uma coisa:

Os olhos do garotão vidraram e ele travou, com o pescoço meio virado para trás, como se houvesse pegado com um torcicolo terrível, de repente.

– Alguém usou raio paralisante? – estranhou Pan – mas ele estava protegido!

– Não – explicou Jaya – é que eu já conhecia o capitão Ster-puh de outros carnavais. Da última vez que o levei à enfermaria, aproveitei para embutir um comando neural que o paralisa por quinze minutos quando ouve certa palavra com a minha voz.

– Que palavra?

– “Stel” – é mais ou menos como “estátua” ou “Mandrake” nas brincadeiras das crianças trantorianas. Também pode ser traduzido como “estúpido”.

– Legal! Você devia ter ensinado mais truques para ele – disse o escoteirinho loiro – senta, deita, dá a pata, finge de morto...

– Você vai ter de me contar essa história direito... – disse Temi.

– Outra hora, já chegamos – respondeu Jaya.

– A estrada ainda está longe – disse Mulder – umas duas milhas, pelo menos.

– Não precisamos chegar lá. Esta clareira serve. Crianças, dêem as mãos. Vamos fazer uma roda e fechar os olhos... ia dizendo Jaya.

– Roda! E isto lá é hora de brincar de cirandinha? – enfureceu-se o líder dos escoteiros.

– Fecha a matraca e faça o que eu digo – ralhou Jaya, já zangada com o moço.

– Se não, você vai se explicar com a Nandi aqui – segredou Virtual Boy – e, vai por mim, se fosse eu, preferia enfrentar o exército trantoriano.

O rapaz obedeceu.

– Bem, meus doces, de onde vocês são, exatamente? – perguntou Jaya.

– Springfield – disse um garoto alto e moreno.

– OK. Virtual Boy, treze passagens para Springfield no capricho... – ia dizendo Jaya.

– Ei, um momento! Você sabe quantas Springfields existem nos Estados Unidos? – contestou Virtual Boy. São exatamente trinta e quatro!

– Springfield, onde tem uma usina nuclear onde meu pai trabalha, perto de Shelbyville, no estado de...– disse outro garoto, o loiro de cabelo espetado.

– Melhorou! Agora fechem bem os olhos. Vou contar até três e depois podem abrir. Se não, podem ficar cegos – brincou Virtual Boy – um, dois, três... podem abrir.

Abriram os olhos e estavam na praça principal de Springfield, dando as mãos em torno de uma velha estátua.

– Bem crianças, podem ir para casa – disse Temi – o pesadelo acabou.

– E nós também – acrescentou Jaya – tivemos uma noite cheia. Mas primeiro vamos conversar lá na minha nave...

– Ei, e nós? – interrompeu Mulder. Precisamos saber mais!

– Ah, digam para onde querem ir e dêem o telefone para o Virtual Boy. Amanhã ou depois, haveremos de conversar com mais tempo...

A bordo do Anael, Jaya parecia desanimada.

– Bem, agora os trantorianos já sabem que estamos aqui. É uma pena, o trabalho de Temi e Mirina ia tão bem... Se não fosse aquele bocó!

– Calma, ma chérie, não esquenta, pra tudo há um jeito – animou Mirina – continue a nadar, como dizia a Dory...

– Sim, vamos pensar em um plano B – propôs Temi. Se usarmos mensagens subliminares de alta velocidade....

– Conosco ninguém podosco! – disse Nandi – se não dá pra malocar o flagrante, a gente chuta o pau da barraca e tá na mão!

– É isso que eu queria evitar – respondeu Jaya – se tivéssemos mais tempo para difundir nossa mensagem, teríamos mais terráqueos conscientes e resolveríamos o problema com menos violência quando a hora do pau chegar...

– Ei, posso interromper? – intrometeu-se Virtual Boy – tenho uma notícia boa e outra ruim.

– Comece pela boa – disse Jaya – preciso de uma.

– A boa é que os trantorianos não descobriram que fomos nós.

– O quêêê! – disseram as quatro boquiabertas.

– O Peter Pan é ótimo em decodificação – explicou Virtual Boy. Conseguiu quebrar um código trantoriano e interceptamos algumas mensagens. O capitão Star-puh perdeu a memória do que aconteceu e, ao que parece, os fuzileiros trantorianos não conseguiram anotar a chapa do caminhão que os atropelou. Juraram que foram cercados por dezenas de soldados inimigos e seus comandantes chegaram à conclusão de que foram atacados por um esquadrão de comandos especiais da Corporação. Nem lhes ocorreu que poderia ser alguém da Solidariedade Galáctica.

– Corporação? Como assim? – afligiu-se Jaya.

– Essa é a notícia ruim. As mensagens deixaram claro que os trantorianos não são os únicos intrusos por aqui. O pessoal da Corporação também está atuando nesse planeta, só que em Moscou e Pequim...

– Xiii... disse Temi.

– Acho que preferia que tivessem mesmo nos descoberto – disse Jaya – acho que o caldo vai engrossar ainda mais. Bem, precisamos descansar. Amanhã, veremos.

 

Fim